sexta-feira, 23 de agosto de 2013

MACHO, MASCULINO, HOMEM


MACHO, MASCULINO, HOMEM

 
Marco Aurélio Baggio
 
         A masculinidade é formação reativa ao horror de ficar capturado no pantanoso regaço ctônico da deusa-mãe. A dependência que o menino sente dos carinhos e dos cuidados de sua poderosa mãe estabelece uma vivência de conforto que instala o menino na placidez do contato excessivo com a figura feminina.
         Então, a certa altura, entre um e cinco anos ou o menino sai fora desse comodismo e vai se haver sozinho, descobrindo e se deslumbrando com o mundo, metendo-se em interação com a pluralidade de objetos de transição e com os objetos de relação que o mundo lhe oferece ou... Ou permanece comodamente empoçado na lama de ser aquilo - aquele adereço que a mãe sempre lhe quis. Um brinquedo, um phallus, um adorno que a condecora como mulher capaz de ter gerado e parido uma criança com apêndice peniano: “uma gracinha da mamãe”.
         O menino não tem licença para desfrutar os tempos largos que sua irmã usufrui, sem prejuízos e com vantagens. Não. O menino tem que se safar desse embondo, sair do colo da mãe amada, fugindo como o diabo da cruz e se construir, na marra, no muque. Com o pouco de hombridade que tem, deve amassar o barro da fabricação de sua masculinidade.
         Tornar-se macho para não ser mais o “filhinho da mamãe”. Vira então homem, precário, bruto, mal acabado, torpe, para fugir ao horror de permanecer indiferenciado, efeminado, agarrado na barra da calcinha da mamãe.
         Homem assim o é por ter assim se tornado em função da formação reativa contra os horrores da captura na feminilidade básica.
         Homem não tem licença para ser feminil. Tem que mostrar serviço no árduo âmbito da masculinidade. Ser macho é uma fuga constante dos chamamentos da mãe sirênica. Homem nem pode dar vacilo...
         Portanto, a mulher é, toda, pronta, inteira, absoluta. Homem tem que se tornar macho-masculino-homem. E mais, a cada dia de sua existência tem que se manter como tal. Não é fácil. Fé que não é. Ser homem hoje já não é um bom negócio. Daí, tantos jovens com menos de 50 anos que ficaram aderidos na estação intermediária, mais cômoda, da homossexualidade.
         Bem mais fácil é permanecer grudado ao universo feminino, na indiferenciação gentil da efeminização. Ou então diferenciar-se apenas ao ponto de poder mergulhar no alegre mundo dos homens que tem fissura por outros homens, aqueles que tem filia por homens com fâneros e ademanes de homens homossexuais.
         O masculino está sempre às bordas de deliquecer. Vive sob ameaça de derreter-se na regressão mais barata, que o seduz, oferecendo-lhe colo, aconchego, tempos largos de fruição descompromissada das relações com as coisas mais custosas do mundo. O masculino só tem uma aposta positiva: é juntar seus parcos atributos e ir adiante, andar pra frente, sair de si e meter-se, comprometer-se, com a relação com os objetos presentes no espaço externo.
 As coisas estão no mundo, morena.
 É que eu preciso aprendê-las.
 
A sustentação do macho é objetal, externa, social, relacional. Ele é um coisa/objeto em relação ao outro.
Ele foge da refusão simbiótica, sempre proposta pelo poço ctônico da indiferenciação com o qual a mãe constantemente o convida.
A sustentação da fêmea é basal, jazigo, instalação estática e absorvente.
Toda mãe é capturativa: cinóica, cináica. As mães podem ser abandônicas, depreciativas ou rejeitantes. Outro tipo de mãe devastadora para o filho é a superprotetora, invasiva, super solícita, que sufoca o filho com um excesso  lodoso de solicitações e de ofertas.  Tais mães cenosas, formadas da lama, provém do lodo e da sujeira de super bem mal querer. Mãe imunda, suja, obscena, lodosa, lamacenta, ctônica, pantanosa, adesiva e capturante. Aquela que está empenhada em fazer o filho fracassar e morrer.
O filho homem tem que se afastar rápida e fobicamente da mãe Medusa, mãe fatal, evitando ser enredado no matagal da natureza. Aquela que dá a vida também pode bloquear o caminho da formação da identidade masculina e da sua liberdade. Mãe mulher leva à captura, à infantilização física e emocional.
Os homens expulsos de mãe estão obrigados a vir a procurá-la, de novo, mais tarde, por meio do sexo. Então mergulham no abismo que o acolhem: o infantilismo do heterossexualismo  masculino. A liberação sexual nos trouxe um presente caótico. Sexo é atolamento na mãe natureza. Homens são pobres diabos deserdados do colo da mãe, trêfegos transeuntes pelas amplidões sem descanso do mundo. Ermitões destituídos do termo aconchego, voltam para a natureza natural bruta e áspera. Partem para a selva da vida, metem-se na luta pela sobrevivência, desejam desfrutar todo o prazer – ilegítimo, legítimo, decente, indecente – intempestivo ou inconveniente que estiver ao alcance de seu braço e de seu pênis. Sim, pois macho possui uma insígnia encoberta, escondida: seu pênis, seu membro viril. Assanhado, instilado de testosterona, endurecido, é ele quem quer e que faz acontecer.
Daí o paradoxo do masculino. A cabeça de cima orienta-se pelo claro olho solar apolíneo do intelecto ocidental masculino. Visa a objetividade reta, direta, objetivada, lúcida e arguta. O macho é assertivo, incisivo, cortante, penetrante, invasivo. Criativo e criador de cultura.
A cabeça de baixo, por sua vez, monócula e esguichante, imperativa e monotemática, ela só quer “aquilo”: o coito, o bis coito... Não pensa: invade e impõe. Não protela: quer já, agora, de qualquer jeito. É bombeador e bombástico. É a irrefletida cabeça de baixo quem comanda o espetáculo.
Ao homem macho masculino cumpre juntar seus componentes – parcos e precários recursos –, e ir adiante, sair de si e meter-se com o alvo explícito de seu querer forte e, transitória e compensatoriamente, mergulha nas farândolas, nas mixórdias, nos embondos das coisas todas do mundo dos objetos externos.
Alguma coisa lá sempre encontra: pedras, trigo, barro, leis, cidades, dinheiro, ciência, arte, instrumentos, guerra, artefatos, dinheiro de novo.
Por ter colocado na testa uma tatuagem: Eu quero é rosetar, e por não conseguir tanto, consola-se em Contínuo querendo, embora não obtendo. A não ser vasqueiramente. Então, contrafeito e emputecido, o homem edifica a civilização: cidades, leis, música, artefatos, arte, ciência. Ainda que quase sempre, depois, quase as destroem com suas compulsivas guerras.
O bicho homem é um mamífero dentado perigoso. Sem contensão, sem peias, torna-se descomedido e mau: mortífero, assassino. E sempre ladrão quando pode...
Só é bom sob comando de um poderoso superior. 
Em seu coração cabem varias mulheres. Cada uma com seu sabor e sua especificidade. Ama uma, transa com outra. Ginasta chinês, opera com várias. As atende por um momento, sempre pouco e mal. Deixa a desejar. Não é romântico. É direto, claro, explícito. Agrada, mas não é essencial. O que o atrai é perceber que a mulher é e está receptiva à sua intrusão como macho. Homem quer mulher que dê, que dá para ele. O que vier a mais, é lucro.
Homem quase não funciona com ideais e idealidades. São toscos, pouco sofisticados, querem aquilo e só. Ou quase que só. Homem gosta de mulher que gosta dele. Tal qual ele é. Sem tirar nem por. Já disse e repito – homem não dá conserto. Jamais existiu cavalheiro andante, príncipe encantado, devotado a descobrir a mulher amada e passar a ter por tarefa e objetivo único zelar e endeusar ela, você. Homem perfeito é ficção. E terrível para as mulheres: homem maduro nenhum está a fim de realizar seus sonhos e seus ideais. Trair é termo forte e tão antiquado quanto corno. Ciúme e possessão são venenos na relação entre os gêneros. O macho masculino homem, essa espécie sob cerrada depreciação quer o sexo, o coito. O orgasmo é seu acme. Depois do orgasmo é um desgastado, sem graça, uma bola murcha que quer duas coisas: dormir ou ir embora.
Homem não é fiel. Está com você e com mais sete. Péssimo ator, desdobra-se em fingir que só tem olhos e só quer você.
Qual o que / com seu terno mais bonito / quando sai / não acredito / quando diz que não se atrasa
. O fato de ficar olhando as saias, as coxas, o decote, a bunda é que configura, para vocês, o mal caratismo, a postura cafajeste do homem. No entanto é o cafajeste que atrai sua concupiscência. Exclusividade de parceria sexual é uma invenção que puseram na cabeça das mulheres. Não existe homem fiel, já disse. A não ser forçado, com cadeado nas ventas e acorrentado por mulher possessiva e paranoica.
Homem quer e precisa de várias. Precisa de novidade. Quer excitação. Homem não dá pelota para maquiagem ou escultura do corpo feminino.
Como recomenda o incisivo verso da canção:
 Minha amiga, se eu fosse você, eu só dava pra mim...
Minha amiga, sou homem bom e, as vezes, até te amo. Sou cheio de pequenos e não consertáveis defeitos. Se você for esperta, se ajeita comigo e dê graças a mim e a nós dois que nos amamos um tanto, um pouco.       
Todo homem é um galinho...         E terrível: já se vislumbra um futuro próximo em que cada homem deverá atender a várias mulheres porque a hombridade e a testosterona estão se tornando escassas...
A dureza dos mores está convidando os meninos a estacionarem, assentados, no comodismo da condição alegre. Parece que todos, inconseqüentemente, estão empenhados a desmantelar a forma de confecção do homem masculino macho.
            Tenho certeza de que vamos fazer falta...

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