sexta-feira, 23 de agosto de 2013

MALDIÇÕES MASCULINAS


MALDIÇÕES MASCULINAS

 

Marco Aurélio Baggio


 

                                                                     Na verdade, sou um homem de muitas mulheres


                                                                 / com todas delicado e atento

                          Se me entediam, abandono-as delicadamente,

                                                                 desprendendo-me delas com uma doçura de água.[1]

 

            Todo embrião que se diferencia em pênis terá de sofrer um banho de testosterona a partir do terceiro mês de gestação, para adquirir os bons caracteres sexuais do macho.

            A testosterona é o hormônio da explicitação, da exteriorização do ser para fora de si, ávido de formar ligações com os objetos, as coisas e o mundo exterior.

            Macho é o que busca no entorno os seus complementos. Ser de inquietude, de busca e de captura, é o aventureiro que se arrisca todo inteiro ao conceber lá, adiante, um mundo melhor do que aquele onde já está inserido.

            Macho-masculino-homem é olho-seta-intenção-canhão. Escapa do afável colo capturativo da Grande-Deusa-Mãe, empoçada e ctônica. Escorre por suas pernas abaixo, vai para o chão, vasculha o entorno, vai para o mundo dos objetos que espicaçam e sustentam sua curiosidade.

            O menino é mais ativo que a menina. Corporalmente um terço maior e mais pesado, sua musculatura estriada esquelética é mais forte que a da irmã. Diferente do sexo da mãe, esta o estranha mais cedo, ao mesmo tempo em que se enche de orgulho por ter gerado um filho homem.

            A testosterona e a masculinidade (ou o sexo masculino) propulsam o infante a logo se envolver com as lides e os torneios do mundo.

            O menino se torna logo hábil nas artes e nos brinquedos infantis. Participa, esforça-se, disputa, vence. E logo quer mais:

                                    pique, pau, bola, cuspe a distância,

                                    pude, passa-anel, pegador, pipa,

                                   bente-altas, garrafão, chicotinho queimado,

                                    nego fugido, gude, finca, pelada,

                                    roubo de frutas, figurinhas, brigas,

                                    palavrão e indecências, carrinho,

                                    bicicleta, televisão e comandos eletrônicos:

um ávido aprendizado de tudo o que presta e do que não presta. O bom e o mau configuram o universo do pequeno homem.

A primeira maldição que acomete o homem consiste no fato de que o Desejo, uma vez realizado, tende inexoravelmente a extinguir-se.

Ela, a mulher tão desejada, tão almejada, uma vez acessível e desfrutada, entra em despique e desvalor. E logo é abandonada.

A segunda maldição masculina é o ter “de ficar olhando as saias de quem vive pelas praias coloridas pelo sol”. (Chico Buarque).

Rosto, boca, seios, pernas, coxas, cabelos, voz, tipo, postura e corpo de mulher atraem o olhar cobiçoso e classificador do macho, colocando-o como espectador dos revolteios feminis.

É um balé de investigação, de conceitualização e de descarte – na maioria das vezes – absolutamente desensofrido e infernal.

A terceira maldição deriva do despreparo do macho para vivenciar situações de intimidade. Treinado que foi para atuar nos cenários do mundo, o homem habitualmente tolera pouco as vivências de aconchego. Ele só vai começar a ficar bom nisso lá pela 5ª ou 6ª década de vida.

A quarta maldição provém da circunstância de o homem ficar exposto ao controle de qualidade pela mulher. A hombridade é um atributo de afirmação contínua. Delicada é a macheza que aparece sob a forma de ereção peniana: desmantela-se facilmente diante de um qualquer comentário depreciativo ou menos airoso da companheira.

“– Calma querida: seu brinquedo é de abrir; o meu é de armar...” – disse o coroa a sua jovem acompanhante.

A quinta maldição masculina decorre da diferença fisiológica existente entre os dois sexos. Ele é rápido, excita-se num instante e já está pronto para o ato. Ela é lânguida, vaporosa, tergiversa, precisa de um clima e de maior tempo para tornar-se receptiva.

Uma dança desengonçada tantas vezes acontece em função dessas diferenças.

A sexta maldição é dada pela rapidez e intensidade fugaz que caracteriza o orgasmo masculino. Homem nenhum reclama ao perceber que sua parceira goza longamente, cinco a dez vezes mais tempo do que ele. Também, via de regra, não protesta quando sua companheira tem o privilégio de ter orgasmos sucessivos, subentrantes.

A sétima maldição que o homem tem que cumprir é ter de tolerar uma enorme parlapatação, um falatório, chato e infindo, pedágio que ele paga com ouvidos moucos, para que ela lhe dê acesso e passagem pelo seu sexo.

A oitava maldição que acomete o homem é que após a ejaculação e o orgasmo, ele defervesce todo, tal qual um balão apagado. Sua fúria carnal esvai-se em um instante. Ele se torna cansado, querendo virar para o canto e dormir, espojado.

On s’enlace et on s’est lasse – sábios franceses!

Ela, não. Apos o primeiro coito, que foi bom para ambos, ela está ávida para conversar, para agarrá-lo, acarinhá-lo. Comporta-se como uma gata assanhada em teto de zinco quente, querendo mais, buscando o bis-coito.

E ele ali, impérvio, refratarião...

A nona maldição configura-se no mantra que todo homem maduro é obrigado a recitar após o orgasmo: “Bondoso é o senhor deus, que nos concede uma segunda ereção 48 minutos depois...” Sábio Millôr.

A décima maldição de que sofre o homem é decorrente de sua natureza de macho: desejar mais do que ser desejado.

Homens são exilados sexuais, passam a vida transitando pela Terra em busca de aceitação de sua fome carnal.

Mulheres são seletivas. Escolhem um e visam apenas àquele, só, de preferência.

Homens são eroticamente toscos, imediatistas e desajeitados. Sua timidez constitucional tem de ser suplantada com esforço e concentração para se aproximar da mulher. Elas podem ser cruéis: grandão, bonitão e... bobão.

Mulheres são eroticamente mais sofisticadas, mais sutis e, quando gostam do esporte, habitualmente, tornam-se mais lassas e permissivas.

A décima primeira maldição é terrível O homem tem de lutar constantemente, ao longo do arco de toda a sua vida erótica, contra os apelos à regressão ao colo materno, lutar contra a efeminização que ameaça sua hombridade. Tem de aprender a evitar os chamados da mãe primeva, apetrechar-se de macheza e de masculinidade nas lides do mundo, aprendendo a ser macho no meio de machos, mantendo, como limite e referência, sua admiração pelo pai-formidável que lhe serve de poderoso modelo estruturante. Assim, só assim, pode vir a sentir os vagidos heterossexuais que o impelem em direção ao mundo das mulheres.

Homem é um sujeito que gosta de mulheres. É só. Isso! E pronto!

Outra maldição – décima segunda – que vitima o homem é o fato de ele viver em fome permanente e em ânsia constante, sempre querendo mais, uma outra coisa, a sobrecoisa, o lucro, o excedente, o surplus, o algo mais, em uma busca, de início edificante, mas, depois, transformada em um desvario enfartante.

Macho-masculino-homem tem uma sexualidade constitutivamente vária, dispersa, ansiosa, cachorra.

O excedente de apetite sexual do homem tem sido sempre atendido por essas hieródulas deusas venais do amor.

“Renego não, o que me é de doces usos: graças a Deus toda a vida tive estima a toda meretriz, mulheres que são as mais nossas irmãs, a gente precisa melhor delas, dessas belas bondades.” (Guimarães Rosa. Grande sertão: veredas. 7ª ed., Rio de Janeiro: José Olympio, 1970, p. 180).

A décima terceira e maior maldição a que cada menino está sujeito consiste em lidar com o conceito de que o sexo básico de todos nós é feminino, e, no entanto, o homem terá de suplantar essa verdade. É o sexo forte, dotado de dois plenos cromossomos sexuais: XX.

O masculino tem um cromossomo X, cheio, e um cromossomo nanico, prejudicado, Y. Portanto, XY.

A mulher é, toda, já, substrato, pronta, perfeita, embora com buraco envaginado.

O homem não. Não é. Ele está-se fazendo, o tempo todo, em estado de confecção permanente. Ser parcializado, ele é ao se fazer, jamais pronto. Ser imperfeito, a natureza o compensou com um interessante apêndice, que o habilita a cometer algumas façanhas, em interação como o outro e com o mundo fora de si.

Aleijado, prejudicado, o homem está sujeito à condição masculina que o obriga a sair de si e a aspirar ao lá, ao além, aos céus.

Por isso mesmo, o homem é apolíneo: belo, reto, direto, esguichante. Conceitualizador e cognitivo, foi ele, no entanto, – o macho da espécie humana –, que criou essa civilização que aí está e que se compõe de uma miscelânea de atitudes e de condutas: a filosofia, o mito, o rito, a religião, a lei e as normas, a economia, a guerra e as armas, a arte e a literatura, a ciência, a medicina e os medicamentos, a tecnologia, a computação, o navio, o trem, o avião, o carro. A água encanada e o bidê. As ações e a bolsa de valores.

Criou também a escravidão, a tortura, a pirataria, a rapina, o furto e o roubo, a corrupção, a empulhação, a mentira, a estrutura social injusta, a apropriação indébita e o assassinato do irmão e do semelhante.

Inventou a pornografia, a depravação de costumes e o sadismo. Disseminou doenças e vícios.

Portanto, não nos iludamos. O homem é:

macho: bruto animal perigoso, irascível e disruptivo;

masculino: excelso atributo de fazeção de mundo e de cultura;

amante: terno, compassivo, generoso e gostoso companheiro, imprescindível ao complemento da mulher.

A décima quarta maldição provém do fato de que homens não sabem ficar sozinhos. Buscam logo a companhia de outros homens para conviver. Adoram contar potocas, beber cerveja, comer tira-gostos e falar das mulheres que não “comeram”.

A décima quinta maldição consiste na circunstância de que os homens não toleram ser deixados ou abandonados por suas mulheres, sem o seu consentimento. A prepotência e a arrogância dos machos os tornam altamente vulneráveis ao abandono súbito por parte de suas companheiras.

Largados, os homens se desproduzem, se abandonam e se amesquinham.

A décima sexta maldição decorre do fato de que os homens são ávidos, tontos e tolos, por se deixarem enganar facilmente por aquilo que as mulheres lhes oferecem em semblant. Eles compram a aparência, o faz de contas, que lhes é dito de mentira e com que brincam até cair.

Mulheres são hábeis em fazer parecer que há algo de delicioso onde nada existe além do vazio de sua histeria. Com freqüência, os homens buscam uma Vênus e descobrem, com seu beijo e seu pênis, que com o tempo ela se transforma em Modéia (um misto de Mocréia com Medéia).

A mais espantosa e desagradável maldição – a décima sétima  que o homem tem de cumprir é a de depreciar seu objeto amoroso. Homens xingam, depreciam, e até atacam suas parceiras. Talvez seja uma maldita forma de se vingar da atração que as mulheres exercem imperativamente sobre eles. Explica, não justifica a violência e o maltrato.

E, provisoriamente, a décima oitava maldição decorre de que a auto-realização empenhada a todo custo é sempre o maior objetivo do homem. Mesmo que isso lhe custe o desfrute do sossego e da intimidade, perturbe sua relação amorosa e impeça que desenvolva a bondade.

 

 

De manhã, amanheço

                        De dia, faço

                        De tarde, aconteço

                        De noite, ardo.

 

                        De madrugada, deferveço

                        E de manhã, recomeço

                        Que sei eu de mim?

                        Um tonto palhaço

                        Girando ao sabor

                        Dos fluxos da

                        Testosterona ...



[1] MORAES, Vinícius de. “Elegia ao primeiro amigo.” In: Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar, S. A., 1986, p.175.

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